Ressaca expõe perigo para moradores de invasões em Monte Alto

Ressaca expõe perigo para moradores de invasões em Monte Alto

A ressaca que atingiu a Região Sudeste no dia 10 de abril causou alagamento e destruição na localidade conhecida como Poças, no distrito de Monte Alto, em Arraial do Cabo. Situada na restinga da Massambaba, a área é classificada com de risco e possui centenas de construções irregulares, expondo a população aos fenômenos climáticos potencialmente fatais. Vídeos e fotografias circularam na internet mostrando os estragos causados pela força das ondas e a apreensão dos moradores frente ao perigo. Não é a primeira vez que o local sofre com inundação. Há cerca de 10 anos, duas pessoas morreram eletrocutadas por ligações clandestinas que entraram em contato com as águas represadas do mar e da chuva.

O ex administrador de Monte Alto e líder comunitário local, Epitácio Soares, disse ter feito uma enquete com moradores de Poças que, segundo ele, foram unânimes em responder que preferem correr o risco por conta própria. “Eu não moro naquela área – disse Epitácio – “mas tenho depoimentos de todos eles que querem continuar ali, correndo risco por conta própria. Minha opinião é igual a deles. Pedimos a abertura do esgotamento do mar para a lagoa (de Araruama). Quando o mar enche assim ele não entra em lugar nenhum. Ele passa por dentro da vala em baixo do asfalto (rodovia RJ-102) para a lagoa. Em 2017 comecei a abrir a vala mas o INEA proibiu. Queremos autorização para que os moradores abram a vala”, completou sr. Epitácio. Porém, o que se vê no local são os cursos naturais de água aterrados pelos invasores e uma enorme quantidade de água acumulada naturalmente entre as dunas.

PESQUISADORES ALERTAM PARA O PERIGO

Para o professor Guilherme Fernandez, coordenador do Laboratório de Geografia Física do Instituto de Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF), a população sempre sofrerá com as ocupações irregulares neste local. Ao longo dos anos, ele desenvolve trabalho altamente detalhado sobre a região e diz que desde os anos 70/80 já haviam estudos sobre a vulnerabilidade do que chama de Massambaba Leste. “Durante as ressacas, e com as naturais flutuações da maré, estes trechos mais baixos sofrem inundações periódicas. O alagamento e a erosão da praia pelas ondas faz parte da dinâmica natural deste trecho da Massambaba”, explica o professor. “O alagamento ocorre nas depressões atrás das dunas, em função da proximidade do lençol freático com a superfície. As ressacas, precedidas por períodos chuvosos como observados em fevereiro deste ano, deixam o lençol freático mais alto”, esclarece.

O professor também alerta para a intensificação das ressacas devido as alterações climáticas observadas no planeta. “As causas são frentes frias intensas geradas por sistemas frontais em sequencia, comuns durante os meses de abril e maio. Neste caso foi uma frente fria seguida de outra, ambas bastante intensas em termos de ventos e consequentemente de altura de ondas”. E complementa: “É possível que a recorrência desses eventos se torne cada vez maior, fruto de mudanças globais”.

Em relação a ocupação desta área, o pesquisador é enfático: “A população ocupante irá sempre sofrer os efeitos indesejáveis desta ocupação irregular. Trechos próximos a costa, submetidos a tempestades, e baixos, não deveriam ser ocupado. Estas ocupações serão sempre alagadas e deveriam ser retiradas. Não há solução viável para a ocupação neste trecho”, concluiu o professor, que também possui estudo aprofundado sobre os campos de dunas de Cabo Frio e do Peró.

INVASÕES NO PARQUE ESTADUAL DA COSTA DO SOL

Uma parte da região de Poças, em Monte Alto, está estrategicamente inserida no Parque Estadual da Costa do Sol (PECS) a fim de evitar novas invasões e preservar tanto as dunas quanto a biodiversidade da restinga. Porém, a precariedade da fiscalização permitiu a continuidade de ações criminosas e a construção de centenas de moradias clandestinas na Unidade de Conservação e nas dunas frontais da praia. Para o biólogo e professor Roberto Noronha, ativista ambiental e conselheiro do PECS, o poder público é o principal responsável pelas invasões.

“As ocupações irregulares na restinga de Massambaba ocorrem há pelo menos 40 anos”, diz o professor. “A fiscalização ambiental ineficiente e, em muitos momentos, inexistente, é um dos principais fatores que favoreceram as invasões de terras e a destruição da restinga. Como agravante, em alguns períodos, as invasões tiveram incentivo do poder público e de político em busca de votos que, segundo relatos, quando não faziam vista grossa, negociavam a ocupação de certas áreas. Na minha avaliação, a Prefeitura de Arraial do Cabo, em todo esse tempo (várias gestões), é a principal responsável pelo problema”, conclui Roberto Noronha, que também coordenou o Grupo de Trabalho Monte Alto do Conselho Gestor do PECS, criado para buscar, junto a sociedade e o poder público, soluções para o problema.

O Ministério Público Estadual e o INEA, que em 2019 promoveram ações para remoção de invasores na restinga da Massambaba, foram procurados pelo Guia Lagos, mas as respostas não chegaram a tempo para o fechamento da matéria. A prefeitura de Arraial do Cabo também foi procurada mas não retornou a mensagem. Foto de Marlon Coutinho.






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